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miércoles, 30 de diciembre de 2015

Á PROCURA DO PENSAMENTO 10


POEMA 10



Cara ocupada, querida cara,
com cem mil sorrisos claros,
unidos a ti pola alma.

Têm alma os teus sorrisos,
e tem lume escondido
a cor da tua olhada,
e nesse rosto expressivo
ficou pintado um suspiro
de felicidade sonhada.

Tanto prazer é a causa
das tuas lágrimas de alegria.

Polos sulcos da tua cara
fluem rios luminosos,
que em sangue acendem a água
no mar dos teus sentidos,
e eu alegro-me havê-los visto
com o meu coração num latido.







Á PROCURA DO PENSAMENTO 9

POEMA 9



Despido a minha palavra
e pergunto ao vento,
vestido de tifão insolente,
se o seu contínuo dialogar
polos recantos da tua dor
será prelúdio à tua esperança.

Mas eu sigo gritando em silêncio
a inútil protesta desouvida.

Despido a minha palavra
e pergunto à vida,
de implacável verdugo vestida,
se a sua desordem pavorosa
criou em ti sensações
de conformismo simulado.

Enquanto eu sigo gritando,
sempre assim e não de outro modo,
em silêncio o meu protesto, calado,
perante tanta inútil espera.







martes, 29 de diciembre de 2015

Á PROCURA DO PENSAMENTO 8

POEMA 8



Coluna invisível de água nunca vista,
unida ao sol por um raio apagado,
vulcão ou mar ondulado,
feito amor que ainda afastado dura
desde que ambos gémeos amenceram.
Mar e céu, de sombras em movimento,
de aves como páxaro que voam
sem mover quase não as suas asas,
sobe e baixa em vaivéns crebados
sobre o sólido ar das ondas,
encrespadas, odiosa espuma,
que à voz do vento deixa muda,
e na sua escondida pena balbucia
estertores de alerta na beira,
silenciosas, cadenciosas pisadas
de sereias encantadas
sobre a areia dourada.

Intensa carícia sobre a orla abrandada,
sangue de sal em pingas humedecida,
que terco o mar por milheiros vomita. 






Á PROCURA DO PENSAMENTO 7

POEMA 7



Uma meninha saltava gozosa
por querer tocar a lua.
Pobre meninha que nunca soube
que no chão teve-a pisada!

Como voam os sentimentos
se pesam tanto as suas asas?

E se o ar não tem alma?
E se um sol sem coração
a noite assaltar decide?
E se a lua apagada
veloz as estrelas esconde?

Uma meninha saltava gozosa
porque uma fada dizia-lhe
que seria a rainha algum dia
de cada ser, de cada cousa.
Mas ao descolar do chão
jamais pôde tocar o céu.

A razão convenceu-a,
quando foi passando o tempo,
que sol, estrelas e lua
desfrutavam-se sem esforço. 







Á PROCURA DO PENSAMENTO 6

POEMA 6



Aquelas emoções,
aquele viver sempre namorado,
ocupam o mar embravecido
onde esboçam ondas os meus sentidos.
Aquelas emoções
são agudas dores na eternidade
dos meus recordos,
que não se resignan a desaparecer,
que são frescos como as primeiras pingas
da orvalhada da manhã.
Sofro porque recordo
e sei de cor a beleza
das vossas caras,
e amaldiçoo por não poder olhar-me,
vaidoso, no profundo mistério
dos vossos olhos,
que muito apesar do tempo
é a luz que me serve para imaginar-vos,
é o aroma doce que no esquecimento
nunca mas se
emborralha,
é a presença estranhada que me sustém,
por enquanto, erguido, sempre vivo.
Onde ficastes colegas
que enchíeis os meus cursos de veludo rosa?
Se algum dia conseguísseis abraçar-me
seguro que veríeis no meu interior
o meu coração vazio, a minha alma lacerada,
os recordos da minha mente,
quase já, em retirada.